Durante alguns anos já venho trabalhando com cães. Atualmente, muito mais focado nos cães atletas, aqueles preparados para disputarem provas de agility.
Recentemente comecei uma pesquisa sem que as pessoas soubessem. Observei o tratamento de meus clientes com seus cães em casa, conversei com pessoas de fora, de outras escolas, de outros hospitais e continuo me questionando: “Um cão pet, tratado em casa com muito colo, mimos, carinhos, que divide a cama com os donos, recebe petiscos e carinhos sem razão de ser (apenas por ser bonitinho…) poderia ser um bom cão de provas?”
Não existe nenhum trabalho científico que responda isso. Talvez motivado por pretender cursar meu mestrado em 2010, poderia tentar responder essa pergunta. Tiro como exemplo em minha própria casa (para não ficar citando aqui os nomes das pessoas e cães que pude observar nos últimos meses). Estou com 4 cães. A mais velha é a Drica, uma cocker de 7 anos que foi muito mimada e tem um comportamento difícil, dominante. Mas ela não serve como parâmetros, pois não faz agility. Partimos então para Flecha, minha Border Collie de 4 anos. Flecha foi uma Border tratada com certo mimo. Foi bem mimada pela minha mãe, quando morou um tempo comigo e ficava mais com ela do que eu mesmo. Brown, quando chegou em casa, foi criado diferente, chegou para ser cão de provas. Nunca recebeu mimo, colo, petisco sem merecer, nunca ninguém falou mole com ele (inclusive já existe um estudo de um Veterinário Inglês que demonstra os males que o cão sofre quando as pessoas conversam com eles de maneira mole, aquele conhecido nhem nhem). Enfim, Brown nunca foi maltratado, sempre teve sua casinha quentinha, aconchegante, comida de ótima qualidade e muitas atividades, mas nunca foi um cão de ficar dentro de casa, dividindo quarto ou cama. Coincidência ou não, Brown se transformou em um cão muito melhor na pista do que Flecha. Mais rápido e preciso.
Hoje estou com outro filhote, o pequeno Jack Bauer de 2 meses, já começa a ser tratado igual ao Brown. Já está na lavanderia, junto com os outros cães, sendo estimulado para ser independente e ter personalidade.
E esse é um outro fator importante. Criar um cão para ser dependente, é um erro sério. Cães precisam identificar a liderança de seus donos, mas precisam ser independentes. A independência em um cão exclui o medo, e cães medrosos são um verdadeiro problema. Volto à Flecha. Flecha é lenta em pista, por que??? É uma cachorra mais medrosa, mais desconfiada, que um leve ruído já a distrai. Brown é independente, focado. Quando está na pista, pode cair o planeta que ele está comigo.
Seria isso fator genético??? Honestamente já exclui esse fator. Conheço cães filhos de campeões que não conseguem um bom rendimento, por outro lado, conheço cães filhos de pais lentos que nunca tiveram bom rendimento em pista que são rápidos e precisos. Existe o fator genético, mas o fator ambiental é muito mais predominante. Não adianta exigir do cão tratado como Pet em casa que seja um espetacular cão de provas, ou será que dá???
Para encerrar, essa resposta ainda não existe, pois não existem trabalhos científicos que o comprovem. O que falo aqui é pela minha experiência desses anos que venho trabalhando com cães. Aqueles cães com a conhecida Síndrome de Peter Pan (tratados durante toda a vida para serem infantis, os filhinhos dos donos) não podem ser exigidos da mesma maneira em pista do que os cães treinados com essa finalidade…
Em 2010 defenderei meu mestrado, provavelmente em cima disso. Fica a discussão…
- “Síndrome de Peter Pan”: criados para serem eternas crianças


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